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A Senhora Dança? A Mandy pelas danças da vida.

Um blog para todas as mulheres depois dos “entas” . Mulheres que, na plenitude das suas vidas, desejam celebrar a liberdade de assumirem a sua idade, as suas rugas, os seus cabelos brancos e que querem ser felizes

A Senhora Dança? A Mandy pelas danças da vida.

A falsa liberdade e a Síndrome do “TER DE” - "Eu tenho de fazer o que se espera de mim. Tenho de ambicionar esses bens, esse status, esse modo de viver – ou serei diferente, e estarei fora." LYA LUFT

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A Síndrome do "TER DE" é uma manifestação típica do nosso tempo, contagiosa e difícil de curar porque se alimenta da nossa fragilidade, do quanto somos impressionáveis, e da força do espírito de rebanho que nos condiciona a seguir os outros. Eu tenho de fazer o que se espera de mim. Tenho de ambicionar esses bens, esse status, esse modo de viver – ou serei diferente, e estarei fora.

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Temos muito mais opções agora do que há alguns anos atrás, as possibilidades que se abrem são incríveis, mas escolher é difícil: temos de realizar tantas coisas, são tantos os compromissos, que nos falta o tempo para uma análise tranquila, uma decisão sensata, um prazer saboreado.

Temos de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado, bom na cama (e no computador), ou temos de ser o pior, o mais relaxado, ou o mais drogado, o chefe do grupo, a mais sedutora, a mais produzida. Outra possibilidade é ter de ser o melhor pai, o melhor chefe, a melhor mãe, a melhor aluna; seja o que for, temos de estar entre os melhores, fingindo não ter falhas nem limitações. Ninguém pode contentar-se em ser como pode: temos de ser muito mais que isso, temos de fazer o impossível, o desnecessário, até o absurdo, o que não nos agrada –  ou estamos fora.

Temos de rir dos outros, rebaixar ou denegrir nem que seja o mais simples parceiro de trabalho ou o colega de escola com alguma deficiência ou dificuldade maior.  Temos de aproveitar o mais que pudermos, e isto muitos pais incutem nos filhos: case tarde, aproveite antes! (O que significa isto?)  Temos de beber em preparação para a balada, beijar o maior número possível de bocas em cada noite, em suma, tem de.

A propaganda atordoa-nos : temos de ser grandes bebedores (daquela marca de bebida, naturalmente), comprar o carro mais incrível, obter empréstimos com menores juros, fazer a viagem maravilhosa, ter a pele perfeita, mostrar os músculos mais fortes, usar o mais moderno telemóvel, ir ao resort mais sofisticado.

Até no luto temos de assumir novas posturas: sofrer vai ficando fora de moda.

Contrariando a mais elementar psicologia, mal perdemos uma pessoa amada, todos nos instigam a passar por cima. “Não chore, reaja”, é o que mais ouvimos. “Limpe a secretária dele, tire tudo do armário dela, troque os móveis, roupas de cama, mude de casa.” Tristeza e recolhimento ofendem a nossa paisagem de papelão colorido. Saímos do velório e esperam que se vá depressa pegar a maquilhagem, correr para o ginásio, tomar o antidepressivo, depressa, depressa, pois os outros não aguentam mais, quem quer saber da minha dor?

O “ter de” faz-nos correr por aí com algemas nos tornozelos, mas talvez nós só quiséssemos ser um pouco mais tranquilos, mais enraizados, mais amados, com algum tempo para apreciar as coisas pequenas e reflectir. Porém, temos de estar à frente, ainda que na fila do transporte.

Se pensar bem, verei que não preciso ser magro nem atlético nem um modelo de funcionário, não preciso ter muito dinheiro ou conhecer Paris, não preciso nem mesmo de ser importante ou bem-sucedido. Precisaria, sim, ser um sujeito decente, encontrar alguma harmonia comigo mesmo, com os outros, e com a natureza na qual fervilha a vida e a morte é apaziguadora.

Em lugar disso, porém, abraçamos a frustração, e com ela a culpa.

A culpa, disse um personagem de um filme, “e como uma mochila cheia de tijolos.  Carregamo-la, de um lado para o outro, até o fim da vida. Só tem uma forma : deitá-la fora”. Mas ela tem raízes fundas em religiões e crenças, em ditames da família, numa educação pelo excessivo controlo ou na “deseducação” pela indiferença, na competitividade no trabalho e na pressão do nosso grupo, que exige coisas demais.

Dizem que devemos informar-nos melhor, mas quanto mais informação, mais dúvidas; quanto mais abertura, mais opções; quanto mais olhamos, mais se expande o écran onde se projectam nosso desejos.

Nesta rede de complexidades, seria bom resistir à máquina da propaganda e procurar a simplicidade, não sucumbir ao impulso da manada que corre cegamente, em frente. Com sorte, vamos até enganar o tempo sendo sempre jovens, sendo, quem sabe, imortais com nariz diminuto, boca ginecológica e olhar fatigado num rosto inexpressivo. Não nos faltam recursos: a medicina, a farmácia, o ginásio, a ilusão, estendem-nos ofertas que incluem músculos artificiais, novos peitos, pele de porcelana, e grandes espelhos, espelho, espelho meu. Mas nós nem sabemos bem, onde nos estamos a meter, e toca a correr porque ainda não vimos tudo, não fizemos nem a metade, quase nada entendemos. Somos eternos devedores.

Ordens aqui e ali, alguém sopra as falas, outro desenha os gestos, vai sair tudo bem: nada depressivo nem negativo, tudo tem de parecer uma festa, noite de estreia com adrenalina e aplausos ao final.

 

Mandy Martins-Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

 

Texto adaptado do original de Lya Luft in "Múltipla escolha"

 

Imagem : Web

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